10 de outubro de 2012

40 mil fora da função pública: Vai sair outra vez asneira, vai uma aposta? (parte 2)

Nem foi preciso esperar sequer 48 horas para que as notícias avançadas na comunicação social de que seriam despedidos pelo menos 40 mil funcionários públicos se revelassem logo um grande logro.


Dando como certas as palavras de Relvas!, que podem ouvir aqui, provavelmente será metade deste valor.

Contas rápidas:

Se fossem 40 mil a sair, com um ordenado base médio de 2000€:
2000 x 12 x 40000 = 960 milhões de euros
Com indemnizações e subsídios de desemprego que terão que ser pagos, talvez se poupasse metade deste valor, ou seja, 500 milhões de euros no primeiro ano.

Mas se forem metade: 20 000 funcionários a sair:
2000 x 12 x 20000 =480 milhões de euros
Com indemnizações e subsídios, provavelmente a poupança será de 250 milhões de euros.

Virem dizer para a televisão que estes "esforço" do lado da despesa poderá vir a minimizar o aumento anunciado da carga fiscal é, no mínimo, atirar areia para os olhos dos portugueses pela enésina vez.

Só a privatização da ANA, que o governo tanto quer que se inclua nas contas de 2012, representaria 1,16 mil milhões de euros de receita extraordinária, ajudando a reduzir o défice em 0,7 pontos percentuais, e esta é apenas uma das muitas receitas extraordinárias que o governo quis aplicar para conter o défice em 2012.

Outra receita super-extraordinária foram os fundos de pensões, que ajudaram o orçamento de 2012 com mais 2,6 mil milhões de euros.
O volume total de receitas extraordinárias que o governo quis e ainda quer enfiar no OE 2012 ascenderia a 6 ou a 7 mil milhões de euros caso o aumento dos impostos corresse conforme previsto.

Com este volume de receita extraordinária que se esgota em 2012, como é possível começar 2013 com a esperança de que o défice em 2013 andará pelos 5% ou 4,5% do PIB?

O governo começará o ano de 2013 com um défice real a 31 de Dezembro de 2012, ou seja, sem contar com as receitas extraordinárias, se calhar de 7% ou 8% do PIB, ou seja 11, 12 ou 13 mil milhões de prejuízo. Trazer estes valores para 4,5% do PIB em 2013 significa reduzir o défice de 12 mil milhões para 7 mil milhões.

Será despedir 20, 30 ou mesmo 40 mil funcionários a solução para minimizar o "enorme aumento de impostos" ?
In your dreams

Ainda estou para ver se algum sindicato ou qualquer outro grupo de pressão colocam uma ação no Tribunal Constitucional, e este deliberar ao governo que por cada funcionário público despedido deve também um do privado ser despedido, por uma questão de igualdade, de acordo com o Artigo 13º da nossa Constituição.

E o pessoal, mais uma vez, engole estes números e os únicos que vejo a falar são os do costume: sindicatos a barafustar, não por causa do aumento dos impostos, mas agora por causa da redução da despesa. O discurso varia dependendo do dia, do vento e da maré.

Aguardo por um jornalista/economista da nossa praça para explicar esta aldrabice aos portugueses.

Tiago Mestre

12 comentários:

Pedro Miguel disse...

Mas há uma grande diferença entre receitas extraordinárias que são conjunturais e esta que é de carácter estrutural.

Essa medida é estrutural e segundo as tuas contas, o impacto seria de 250 milhões em 2013. Mas seria maior em 2014, se anularmos o efeitos dos subsídios e indemnizações, o efeito seria então de 480 milhões em 2014.

Nenhuma medida, só por si é suficiente para baixar o défice.
A baixa do défice só pode ser atingido com um somatório de medidas.

Quanto ao enorme aumento de impostos.
Não me recordo agora dos valores ao certo, mas a subida do IMI deverá representar um aumento de 800 milhões de euros em imposto.

250 milhões são um terço desse valor.
Essa poupança será suficiente para garantir a manutenção de uma cláusula de salvaguarda?
Não tenho esses dados, mas, se a comunicação social e a classe política está a fazer campanha contra a subida "exagerada" do IMI, pode em coerência dizer que é um corte de despesa a pagar um aumento dito enorme de imposto.
E estamos a falar a falar apenas para 2013, pois em 2014/2015 e por aí fora, a cláusula de salvaguarda desaparecerá, o IMI irá de acordo às avaliações, mas o corte de despesa pode (deve) permanecer.

Miguel disse...


Esta medida só serve para demonstrar que o estado está de fato a aplicar cortes(da pior maneira)e de certa forma legitima o "saque" ao bolso de todos...

No meu ver apenas isso... porque realmente falamos de "migalhas" e
assim não vamos lá.

Acabem com as politiquices, coloquem técnicos "no terreno"a trabalhar e talvez tenhamos resultados.
Ainda não percebi bem a necessidade de políticos. Só mesmo para definirem estratégias, mas isso de ano a ano pode ser feito, no meu ver.

deathandtaxes disse...

O problema em que nos deixamos enredar, é mesmo complicado... O problema principal reside na própria Constituição da República.

Quem elaborou o texo constitucional, teve bastante empenho em garantir os Direitos, Garantias e Liberdades dos Portugueses! Só este conceito de quem tiver a sorte (ou azar) de nascer em Portugal, casar com um(a) português, ou obter nacionalidade Portuguesa, tem logo estes tais "Direitos, Librerdades e Garantias", é coisa de arrepiar. Pois estes seres, por serem tugas, podem nascer, viver, estudar, procriar, adoecer, reivindicar, comer beber, e morrer, sem contribuir um cêntimo que seja de impostos e ou Segurança Social, embora usufruindo de todos os serviços tendencialmente gratuitos, subvenções e subsídios e pensões de toda a espécie e feitio, até mesmo o funeral é por conta do Estado i.e. por conta dos contribuintes - essa espécie em vias de extinção.

Como conclusão:

1. os direitos de uns acabam, quando dependem e são à custa de responsabilidades e deveres dos outros!

2. as liberdades de uns cessam, quando interferem nas liberdades dos outros.

3. as garantias só são garantidas, enquanto houver financiamento (tanto por via dos impostos, como por via financiamento externo) para pagar as contas!

Tiago Mestre disse...

Pedro, quando me referi às receitas extraordinárias, apenas estava a englobar os fundos de pensões, a ANA e de certa forma o aumento de impostos que já houve para 2012 mas que não se traduziu em mais impostos. Isto é totalmente conjuntural.

Quanto à redução da despesa por despedimento estou de acordo contigo:
É de caráter estrutural, custa mais em 2013 mas depois começa a baixar.

Sobre a subida do IMI ser de 800 milhões. desconhecia o valor, mas acho uma... brutalidade, e não creio que os senhorios se cheguem à frente com tanto dinheiro. Preferirão não pagar e logo se vê.
Se poupassem 250 milhões nos despedimentos e com isso manteriam a tal cláusula de salvaguarda do IMI?
Só fazendo as contas, mas já sabes a minha opinião:

Aumentos de impostos é matar economia ainda mais depressa e de forma mais irreversível do que fazer o que tem que ser feito, que é reduzir despesa, reduzir impostos e fazer tudo por tudo para que a economia não colapse no período de transição, algo que eu também tenho muitas dúvidas, mas que não vejo outra forma de o fazer.

Pedro Miguel disse...

Eu também sou e sempre serei por uma baixa de impostos quando possível.

Mudando ligeiramente o assunto.

Alguém sabe onde posso encontrar um estudo sobre o imposto sobre os combustíveis?

É que quer-me parecer que se fosse feito um forcing (mesmo com descida de imposto) no preço dos combustíveis, principalmente do gasóleo seria benéfico ao nível do défice.
Não sei os dados ao certo, mas estou em crer que somos neste momento auto-suficientes em gasóleo, ao mesmo tempo, o nosso gasóleo que pouco mais caro é que o espanhol ainda faz com que muitas empresas de camionagem abasteçam em espanha.
É uma fuga de centenas de milhões de euros que deviam estar contabilizados no nosso PIB. Eu sei que podia aumentar a importação de petróleo, mas é facilmente compensada pela não fuga de capitais.

O que eu gostava de ter dados é se o aumento de PIB versus possível diminuição de receitas no imposto (o que não é certo) iria beneficiar o défice em % do PIB.

Seria bom poder estudar isso como uma boa proposta para Portugal.

Anónimo disse...

existe um problema nessas contas, as pessoas nao vao ser despedidas apenas não lhe vao renovar contrato!! ou seja normalmente estas pessoas ganham menos que as que estao a contrato sem termo ou melhor as que estao ainda abrangidas pela antiga funcao publica...ou seja corta-se em quem trabalha normalmente e que tem menos beneficios para manter com alguma sorte/azar os que sao improdutivos e recheados de regalias! ou seja mais uma vez corta-se de forma cega sem olhar a necessidade daquele recurso humano ou a sua produtividade, apenas se tem contrato a termo ou nao!

outro dado na area da saude falo pela minha classe, sou enfermeiro existem unidades de saude familiar exclusivamente com contratados de termo em que o salario liquido ronda os 860 euros mensais!! longe do valor de 2000 euros mensais...nao sou contra a racionalização de recursos mas não sei como vai correr, parece-me mais uma daquelas medidas que se anunciam e depois não se cumpre

vazelios disse...

Penso que ao nível dos impostos já se atingiu uma situação limite.

Mas nada como um aumento para nos ensinar a melhorar alguns rácios:

- A poupança sobe
- As importações diminuem
- O investimento tende a subir com a poupança

Com isto o PIB pode subir a médio prazo e, a meu ver, torna-se menos dependente do consumo interno.

E com isto as pessoas acordam do sonho e vivem mais com mais responsabilidade.

No blogue economico-financeiro o professor explica e dá alguns exemplos de países em que a taxa de poupança é ridiculamente baixa e não há crescimento. Pelo contrário, taxas de poupança acima dos 20% gera crescimento, via investimento.

Com isto não defendo taxas de 50%, se não o nosso psicologico também se vai abaixo. Mas ter um nível elevado qb não tem só aspectos negativos.

Agora sobre os impostos sobre as empresas é outra conversa.

Não vejo nenhum ponto positivo em se taxar fortemente as empresas.


Sobre o post e q questão dos 40mil em si, o que eu acho é o mesmo que em outras medidas polémicas.

O governo gosta de apalpar terreno e como sabe que está movediço, vai dando meias medidas para ver como arde.

Acho é bem que diminuam FP foi também por isso que votei neles!

Já peca é por tardio

Pedro Miguel disse...

Por acaso também acho os 2000€ exagerado, mas é um número como qualquer outro, sem dados concretos só podemos fazer cenários.

Estou à vontade para falar do funcionalismo público, pois ambos os meus pais o são e ambos defendem que ineficiência. Ambos estão dispostos a cortar nos salários de bom grado, embora, não estejam dispostos a perder o lugar.

Tive sorte com a minha educação, em minha casa sempre se poupou no período de vacas gordas e nunca o nível de vida desceu no período de vacas macas. Os salários nunca foram elevados, mas nunca foi preciso recorrer ao crédito de longo prazo.

Agora, o país foi mal habituado, ainda hoje via uma conhecida queixa-se via facebook: "Consulta marcada para as 9, o médico chega às 10 e ainda vai tomar café".
O meu primeiro pensamento foi... é o público no seu melhor.
Embora não generalize pois tenho bons exemplos em casa, a verdade é que no privado seria muito difícil de acontecer.
A ineficiência custa caro em saúde e em dinheiro!

Voltando ao exemplo que tenho em casa, bons níveis de poupança é bom para a economia, mas o que é mau é essa poupança existir no período de vacas magras.
Em Portugal, estupidamente, gastamos quando há muito dinheiro e poupamos quando este não existe.
Em geral somos mal informados e não sabemos gerir a nossa vida. É preciso perceber que somos indivíduos (a frase vem da individualidade) e que temos que assumir a nossa vida, não devemos espera que os outros façam por nós, mas vivemos em sociedade e se temos que abdicar de um pouco para o bem geral, devemos ter a humildade de o fazer.

Vamos cortar na despesa e devemos aceitar!
Vamos poupar se há dinheiro e assim vamos poder gastar em períodos piores podendo suster a recessão.

Tiago Mestre disse...

Se a remuneração média é mais baixa do que os 2000€, e deve mesmo de ser, conforme a opinião do anónimo enfermeiro, pior ainda.

São só trocas e baldrocas

Vivendi disse...

Pedro,

Quadro margem de distribuição nos combustíveis na Europa:


http://vivendi-pt.blogspot.com/2012/09/quadro-margem-de-distribuicao-nos.html

Anónimo disse...

o anonimo enfermeiro:

é uma medida que me parece que nao vai ser aplicada, o relvas ja vem falar de excepções e quando entra por ai esta tudo perdido...
nao ponho em causa a necessidade de optimizar recursos, mas instituir como criterio o vinculo laboral acho no minimo errado...

Tiago Mestre disse...

Exato
Havendo exceções, já ninguém quer ficar na fila.
Que sejam os "outros" a chegarem-se à frente que eu estou muito bem no meu cantinho.

Gaspar fez eco em Portugal do que lhe pediram no Luxemburgo. A sociedade civil revoltou-se, e vendo os estragos, apareceram logo as exceções.
O assunto morreu aqui e na próxima reunião Gaspar poderá invocar que a "tensão social" não permitiu tais veleidades.
assunto arrumado